Uso Operacional das Aeronaves Furtivas

Operações de aeronaves furtivas deixaram a realidade dos simuladores de computador e testes de resistência há mais de uma década, em 1991. As operações aéreas na Tempestade de Deserto mostraram que seu pequeno RCS permitiu ao F-117 cumprir suas missões num ambiente de defesa aérea que deveria ser extremamente perigoso para aeronaves de assinatura convencional.

O F-117 realizou as missões mais perigosas na primeira noite da guerra. Os radares de alerta aéreo iraquianos, que cobriam o sul da fronteira além da Arábia Saudita, foram designados para detectar aeronaves atacantes que se aproximavam do espaço aéreo do Iraque. O setor de operações central deveria coordenar o acompanhamento de aeronaves de ataque, alertar baterias de mísseis SAMs e caças assim que seus perfis emergirem  nas telas dos radares.

Um veterano descreveu que os F-117 "voavam através, entre e dentro do coração de uma defesa aérea totalmente operacional". Ao realizar isto, eles atacaram alvos que enfraqueceram as defesas aéreas do inimigo e o comando e controle inimigo, com efeitos importantes nas operações aéreas subsequentes. A superioridade aérea foi conseguida ao se atacar o cérebro do inimigo e não sua força aérea no ar ou em terra como era feito antes do advento da furtividade.

No total, o F-117 realizou 1.297 sortidas sem nenhuma perda. Sem nenhum atrito, o comando estava livre para empregar o F-117 contra alvos de alto valor.


F-117 Nighthawk

O F-117A se tornou operacional em outubro de 1983. As operações primárias planejadas para o F-117A eram missões secretas e clandestinas como as da Delta Força do US Army. A aeronave poderia voar até o alvo sobre países amigos ou inimigos sem ser detectado. Seria usado sempre em pequeno número contra alvos como bases terrorismos. A USAF planejava um esquadrão para missões tipo "Delta Force" e dois esquadrões treinados contra alvos de alto valor. O Congresso autorizou mais que a USAF queria e em 1991 a decisão provou ser acertada quando o Iraque invadiu o Kuwait.

A primeira missão do F-117 deveria ser um ataque contra bases terroristas da OLP no sul do Líbano após o ataque contra uma base do USMC em 1983. A aeronave voaria da Carolina do Sul direto até o local. A missão foi cancelada minutos antes de decolar. Os Comandantes não sabiam que o F-117 existia e nem como usá-lo. Foram usadas aeronaves convencionais com algumas perdas.

Em 1986 foi a segunda oportunidade de ser usado quando 8-12 aeronaves iriam atacar bases na Líbia na operação El Dorado Canyon. As aeronaves fariam reabastecimento em vôo sobre o Atlântico, mas novamente o Comandante do Teatro não tinha conhecimento da aeronave e suas capacidades e acabou usando os F-111 da USAF e A-6, A-7 e F/A-18 da US Navy.

A primeira operação foi em 1989 durante a invasão do Panamá. Era um ataque divisionário de um par de F-117 e podia ser feito por qualquer aeronave. Foram usados mais pela precisão e mesmo assim os efeitos foram duvidosos.

O teste real foi na Guerra do Golfo em 1991. Nesta campanha os F-117 voaram 1270 saídas e 7 mil horas de vôo sem nenhuma perda. Foram 2% de todas as missões, mas atacaram 40% alvos estratégicos e eram os mais bem defendidos.

Um total de 22 aeronaves do 415º TFS foram deslocadas para a região inicialmente e o total chegou a 40 com a chegada do 416º TFS. Durante o conflito foi atingido uma disponibilidade de 86%. Foram lançadas 2.567 bombas com 1.665 acertos, 418 errados  e mais 480 não lançadas. A combinação de aeronave furtiva com arma guiada de precisão foi considerado oito vezes mais eficiente que as aeronaves não furtivos. Em uma noite, enquanto 8 aeronaves de ataque com 30 aeronaves de escoltas atacavam um alvo, 21 F-117 atacaram 37 alvos sem escolta.

Os F-117 estavam baseados em Khamas Mushait a cerca de 1000km do sul de Bagdá e bem longe das ameaças de mísseis Scud. Tinham que voar 8 horas até o Iraque. A distância fazia parte das defesas do F-117.

Antes do inicio do conflito os F-117 testavam as defesas iraquianas voando em direção a fronteira. Os iraquianos nunca reagiam enquanto contra aeronaves convencionais na mesma situação eram atingidas por feixes de radares tão logo entrassem no alcance dos radares iraquianos.

O F-117A voaram as missões mais difíceis na primeira noite. A missão inicial era fragmentar as defesas integradas em camadas. Junto com outras aeronaves foram destruídos 500 radares e mais de cem posições de mísseis SAM. inicialmente foi planejado usar o F-117 mais o F-111 e A-6 com proteção de interferência eletrônica de escolta. Simulação em computador previu uma perda de 50% para os F-111. Assim apenas nove F-117 atacaram centros de comando e comunicações em Bagdá na primeira noite. Os B-52 ajudaram com mísseis cruise CALCM. A primeira onda de ataque eram drones despistadores seguidos de aeronaves equipadas com mísseis HARM. Logo o F-117 mostrou que podia atacar alvos muito bem defendidos. Uma tentativa de ataque a alvos em Bagdá com os F-16 levou a poucos danos ao alvo e resultou na derrubada de dois F-16. Depois dessa missão só foram usados o F-117 para atacar Bagdá.

Logo apos a Guerra do Golfo o Pentágono se opôs a compra de 72 caças F-16 citando que o F-117 era oito vezes mais efetivos e poderia comprar menos caças para ter o mesmo efeito. Porém, o F-117 é especializado e a maioria da missões o F-16 pode fazer melhor e mais barato. O F-117 não tinha o alcance, flexibilidade de munição e era mais caro de operar. Já nas missões em que foi planejado ninguém o superava. A USAF acabou não comprando mais F-117.

O F-117 foi usado na zonas de exclusão aérea no Iraque na década de 1990. Em algumas ocasiões foi armado com mísseis anti-radar AGM-88 HARM. Enquanto os F-16 voavam fora da área onde se achava haver defesas os F-117 voavam dentro da área. Se o radar ligava para atacar ou acompanhar os F-16 o F-117 dispara seus mísseis.

Depois da guerra do Golfo foram executados outros ataques. Em 13 de Janeiro de 1993 seis F-117 armados com uma única bomba guiada a laser cada atacaram bases de mísseis SAM e estações de comando em Tallil e Al Amara.
Amara.

Os F-117 voaram mais de 800 saídas contra a Servia em 1999. Ocorreu uma perda para uma bateria de mísseis SA-3 em 27 de março de 1999. Outro foi danificado em primeiro de maio.

Os pilotos de aeronaves convencionais têm que se preocupar com as defesas, tendo que realizar manobras evasivas e lançar contramedidas ficando as vezes incapazes de atacar na posição e direção ideal, diminuindo sua eficiência. Os pilotos de F-117 devem ser bons em interpretar fotos de reconhecimento para garantir que estão atacando o alvo certo. Só disparam se tiver certeza. Por isso tendem a ser os melhores pilotos de ataque do mundo pois só se concentram nesta tarefa. Mesmo assim acabaram tendo pouca efetividade em Kosovo devido ao mau tempo as regras de engajamento. Depois deste conflito passaram a receber armas guiadas por GPS como a EBGU, JDAM e WMCS.

O F-117 voltou a ser usado como força de reação rápida na invasão do Iraque em 2003 contra bunkers. Era armado com bombas perfurantes.

O F-117 tem um histórico de cerca de 2.100 surtidas de combate com uma única perda. Com uma taxa de perda de 0,047 % ele está bem abaixo das perdas de outras aeronaves no Golfo e no Kosovo, e se for considerado que só voa contra alvos muito bem defendidos as estatísticas têm um sentido ainda melhor.

 
B-2 Spirit


O B-2 entrou em combate pela primeira vez em 24 de março de 1999 na Sérvia na operação Força Aliada sendo umas das primeiras aeronaves a entrar em combate no conflito. Foi seguido antes por mísseis cruise.

A USAF disponibilizou nove aeronaves B-2 para o conflito sendo dois indo, dois vindo, dois preparando para a missão e mais três na reserva. A disponibilidade foi de 75% durante a campanha sendo duas missões canceladas pela OTAN. Uma missão atrasada foi em 30 minutos devido a falhas técnicas. As aeronaves voaram cerca de 45 missões ou cerca de 1% do total (30 mil) em 78 dias.

Os B-2 lançaram 8% das bombas durante a campanha contra 39% de todos os alvos com 87% de acerto. Foram lançadas um total de 650 JDAM sendo que 384 foram disparadas em 12 noites. Na Sérvia os B-2 usavam o radar para diminuir o erro de aquisição e aumentar a precisão. Próximos do alvo o radar "fotografava" os alvos e comparava com as fotos tiradas antes. Os tripulantes verificavam as coordenadas do GPS para passar para as JDAM. Em 90% das vezes as JDAM acertavam a menos de 9 metros do alvo. Também foram disparadas quatro GBU-37B "bunker baster"  de 2.131 kg.

Armado com 16 bombas JDAM cada B-2 podia fazer o trabalho de até oito F-117. O B-2 leva uma carga 10 vezes maior a uma distancia cinco vezes maior que o F-117 resultando em uma carga x raio 50 vezes maior.

As aeronaves voavam sempre a noite e as vezes em dupla. Participavam dos pacotes da OTAN sendo geralmente as primeiras a atacar. Os B-2 atuavam coordenados com outros meios de apoio como EA-6B, supressão de defesas, MiG-CAP, RC-135 Rivet Joint, E-3 AWACS e outros. O mau tempo as vezes os deixavam sem apoio pois não afetava suas operações.

Uma das missões foi perfurar as pistas das bases servias que eram atacadas depois por B-52 e B-1 com bombas convencionais. Em uma saída um B-2 atacou duas bases aéreas em uma missão. Em um ataque os B-2 atingiram um vão de ponte de 12x12 m com seis JDAM e mais duas no vão norte. Antes a mesma ponte tinha sido atacada por duas AGM-130 disparadas pelos F-15E e depois por bombas guiadas a laser disparadas pelo F-117 sem sucesso.

A primeira vez que os B-2 dispararam bombas guiadas por GPS foi em 8 outubro 96 quando dois B-2 equipados com a GPS Aided Munition (GAM) foram disparados a 12.800m contra 16 alvos separados em Nellis. Cada aeronave lançou oito GAM a 10km e a precisão tão foi alta que os alvos se desintegraram.

Antes de Kosovo os B-2 voaram poucas missões de longo alcance e havia preocupação com as características furtivas que poderiam se degradar, mas a pratica mostrou que não seria um problema. Não houve indicação que os B-2 foram detectados ou acompanhados. Na altitude de cruzeiro, acima do mal tempo, o ar fino não alterava a furtividade. Nos primeiros 58 dias do conflito que durou 78 dias apenas o F-117 e B-2 voavam sobre Belgrado, a região mais bem defendida.

As missões duravam na Sérvia duravam cerca de 30 hora incluindo o brifim e debrifim. Os pilotos davam cochilos de 2-6 horas. Uma peça levada foi um colchonete estendida no espaço entre os acentos. Devido a duração da missão os pilotos se despediam da famílias, iram para a guerra, e voltam dois dias depois. Foram as primeiras missões de combate lançados dos EUA contra outro continente. A família era avisada que estavam voltando para casa. O B-2 mostrou a importância das aeronaves de combate de longo alcance.

Em 2001 os B-2 voltaram a operar no Afeganistão, mas foram apenas seis missões pois as defesas eram leves. Os B-2 pousavam na ilha de Diego Garcia e voltavam para casa em 30 horas com outra tripulação. Ficavam 70 horas sem desligar os motores.

Os B-2 voltaram a operar no Iraque em 2003 atacando em duplas sobre Bagdá, junto com um pacote, as vezes com três aeronaves, a partir de Diego Garcia.

Agora as  escolta dos F-22A deve permitir que o B-2 opere de dia dando furtividade de 24 horas. O F-22 deve garantir a superioridade aérea local com varredura de caça e supressão de defesas.

F-22A Raptor

O F-22A nunca foi usado em combate, mas os testes do protótipo YF-22 contra um F-15 pilotado por veterano já mostrou a superioridade clara do F-22A. Os dados destas simulações não estão disponíveis.

A avaliação operacional (OPEVAL) do F-22A Raptor foi iniciada em abril 2004. O requerimento era ser duas vezes mais efetivo que F-15C que irá substituir. O F-22A Raptor foi testado em cinco cenários com variações em cada um:

- Primeiro: um x um contra o F-16.
- Segundo: dois F-22A deveriam destruir um E-3 Sentry defendido por quatro F-15 ou F-16.
- Terceiro: dois F-22A tem que proteger um B-2 contra quatro F-15 ou F-16.
- Quatro: quatro F-22A devendo um E-3 sendo atacado por 8 F-15 ou F-16.
- Quinto: quatro F-22A protegendo quatro F-117 contra oito F-15 ou F-16.

Os cenário foram testados várias vezes e poderia haver apoio ou não de EA-6B e ameaça de mísseis SAM. O F-22A prevaleceu em todos os engajamentos contra um número superior de adversário.

O F-22A voava contra um número superior de caças F-15 e F-16. Superou os inimigos consistentemente, detectando e disparando sem ser visto, e voava mais em um dia. As vezes voava com inferioridade de 8 x1. Contra 2x1 a vitória é garantida. Geralmente quatro F-16 podem vencer seis inimigos enquanto o F-22A diminuiu a relação para dois contra seis.

Em um cenário eram cinco F-15 contra um Raptor. A batalha durou 3 minutos com todos os F-15 sendo derrubados e nenhum F-15 viu o Raptor. Em uma missão de dois F-22A contra seis F-16 os adversários foram derrubados em 3,5 minutos.

No total foram voadas 188 saídas com seis F-22A durante a avaliação. Eram geralmente quatro aeronaves e mais um de reserva em cada missão. Foram testadas a confiabilidade, razão de saídas, disponibilidade e armamento necessário para derrubar os inimigos. Os resultados foram usados para simular o desempenho de um esquadrão de F-22A e então comparar com os requerimentos. O F-22A não foi testado contra alvos em terra.

A Lockheed calcula que uma combinação de F-22A e F-35 é cinco vezes mais efetiva que caças da geração anterior na maioria dos cenários e pode destruir o mesmo número de alvos com 50 a 70% menos aeronaves. A superioridade aérea pode ser garantida mais rápida com a destruição de alvos mais rapidamente. Uma guerra mais longa significa mais perdas. Em 2009 as novas versões devem  ser quatro vezes melhor que os caças legado.

A USAF tem uma média de 1,25 pilotos por aeronave de caça e o F-22A deve ter 2,5 pilotos por aeronaves por poder voar mais (maior disponibilidade). Assim 381 aeronaves poderão substituir 880 aeronaves do tipo F-15, F-16 e F-117.

Depois de entrar em operação em 15 de dezembro de 2005 foram realizadas duas operações tipo Global Strike Missions. Oito pilotos conquistaram 33 vitórias sem perdas. Atacavam junto com os F-117 e B-2, seguidos depois pelos B-52, F-16 e F-15E com as defesas destruídas. Caças Su-27 e Su30 eram simulado por caças F-15.

Nos treinos do F-22A são incluídos ameaças com baterias de mísseis SA-10 e SA-12 simulados e atacados com bombas JDAM. O F-22 treina contra caças F-15, F-16, F/A-18 e F-22. O F-22 simula o Flanker com o datalink informando a posição para outro F-22 para aumentar o RCS. Uma piada na USAF é que os F-22 estão tendo dificuldade para conseguir adversários nos exercícios.

O F-22 mostrou ser superior também em outro tipo de treinamento. Enquanto um piloto de F-15 gasta cerca de 1000 horas de vôo para aprender a usar a aeronave taticamente, um piloto de F-22 precisa de apenas 100h para ter a mesma capacidade graças as novas interfaces, não precisando compilar os dados dos sensores.



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